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Tradicionalismo - Nativismo - Regionalismo - Folclore

INFLUÊNCIA NA CULTURA GAÚCHA

AVALIAÇÃO HISTÓRICA

Ao iniciar esta avaliação, devemos ressaltar que os militantes deste movimento somam, aproximadamente, 3 milhões de adeptos; portanto, uma força viva, atuante e de um extraordinário significado social. Mas esses militantes estão voltados basicamente para os valores culturais de nossa herança histórica e são, antes de tudo, brasileiros convictos, defensores de um Rio Grande federativo e consciente de que a grandeza de seu Estado depende diretamente da grandeza da nação como um todo.

 

A secessão, os movimentos separatistas, são frutos de mentalidades distorcidas, sem o mínimo significado social, cuja capacidade agregadora não ultrapassa centena de adeptos. São movimentos que nascem desacreditados e morrem sem representatividade.

 

A robustez e a importância da contribuição social do movimento tradicionalista na cultura rio-grandense provoca uma incursão humanística universal.

 

Os povos cavaleiros conhecidos ao longo da história da humanidade desenvolvem um forte apego à terra. E isso implica uma extraordinária coincidência de costumes. Se analisarmos os hábitos dos povos cavaleiros conhecidos, chegaremos inevitavelmente a essa conclusão. Desde os hunos, chegando aos cossacos de hoje, aos berberes, aos beduínos de maneira geral, aos andaluzes da Espanha, aos campinos rebatejanos de Portugal, aos cavaleiros americanos, como o próprio “gaúcho brasileiro”, o “gaucho” Argentino e Uruguaio, o “huasso” do Chile, o “llanero” da Venezuela e da Colômbia, o “charro” mexicano e próprio “cow-boy”, têm provérbios, ditos populares, usos e costumes semelhantes. E mesmo no Brasil convém distinguir mais três povos cavaleiros além do gaúcho: o “pantaneiro” do Mato Grosso, o “boiadeiro” de Goiás, São Paulo e Minas Gerais e o “vaqueiro” encourado no Nordeste. É absolutamente comprovado que esses povos brasileiros têm traços comuns – até aqui uma tradição muito forte, E isso nos leva a uma série de considerações que, a partir do Rio Grande do Sul, se torna um fenômeno nacional e até mesmo internacional. Por serem de uma tradição forte, são levados, freqüentemente, ao culto dessas práticas. Mas em nenhuma parte do mundo – e isto é importante que se frise – o referido culto chegou a corporificar um movimento, a não ser no Rio Grande do Sul, que é tradicionalista.

 

Temos, então, a tradição por um lado, que é um culto que se nutre de uma escala de valores. Esses valores são: o apego ao chão, aos usos e costumes, ao cavalheirismo, o respeito pelo fraco e pelo vencido, o orgulho da coragem moral e física, a hospitalidade.

 

O apego ao chão tem um nome: nativismo. É um sentimento que o homem desenvolve pelo chão de onde é nato, onde nasceu. E este nativismo como a tradição não é privilégio do homem do Rio Grande do Sul. Existe em todo o mundo, sobretudo nas sociedades pastoras que estamos analisando, nestas sociedades do homem a cavalo, nestas comunidades dos povos cavaleiros.

 

Se a tradição e o nativismo existem em todas as partes do mundo, o tradicionalismo, que é o movimento da tradição, é a tradição sistematizada, institucionalizada, organizada, movimentando-se, existe somente no Rio Grande do Sul. Quando aparece fora dele é porque foi levada pela transumância dos gaúchos.

 

Este movimento tradicionalista, esta dinamização à tradição é uma peculiaridade nossa. São os Centros de Tradição Gaúcha as células através das quais a tradição se move para tornar-se um movimento. Um fenômeno tipicamente nosso. Sabemos que existem sociedades tradicionalistas em várias partes do mundo, mas elas não têm uma filosofia comum, não possuem uma unidade fundamental, não se movem de acordo com as mesmas regras nem no mesmo compasso, no mesmo ritmo.

 

Aqui no Rio Grande do Sul, os CTG’s têm a mesma organização, respeitam as mesmas normas, editadas por uma federação que se chama MTG – Movimento Tradicionalista Gaúcho – e de acordo com quatro trabalhos fundamentais: a tese de Barbosa Lessa, “O Sentimento e o Valor do Tradicionalismo”; de Carlos Galvão Krebs, “A Função Aculturadora dos Centros de Tradições Gaúchas”; de Glaucus Saraiva, a “Carta de Princípios do Movimento Tradicionalista Gaúcho”, e a de Antônio Fagundes e Onésimo Carneiro Duarte, “A Função Social do Movimento Tradicionalista do Rio Grande do Sul”.

 

Esses quatro documentos ditam as normas fundamentais para o funcionamento de cada uma das entidades tradicionalistas. Fazem, esses documentos, que cada CTG aja basicamente da mesma maneira, ao contrário do que existe no Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile e em outros países, onde entidades tradicionalistas existem funcionando de forma independente, seguindo os rumos traçados pelos seus dirigentes eventualmente eleitos.

 

Temos ainda a considerar, dentro deste contexto, de uma maneira muito especial, o folclore, que é uma das ciências auxiliares do tradicionalismo, hoje aceito como uma das ciências sociais.

 

Durante muito tempo, o folclore foi reconhecido apenas como um ramo de uma árvore frondosa, que seria a antropologia cultural, e, às vezes, nebulosamente, como ciência, simplesmente, sem ter definida a sua situação nesse quadro. O folclore, hoje, é aceito numa corrente mais moderna, como uma ciência social que tem o seu campo próprio, o campo da cultura espontânea, aquela que chega informalmente ao grupo social, que é transmitida de boca a ouvido e que não é ensinada nas escolas nem nos livros, aquela que todos nós somos portadores, lado a lado com a cultura escolástica, formal, dos livros e das escolas. Então, o estudo dessa cultura, a sua pesquisa, a sua formalização, a sua sistematização e a formulação de suas leis próprias seria o campo, o terreno da ciência social chamada folclore.

 

Temos que considerar também o regionalismo. Este é percebido como uma subcorrente do romantismo, uma corrente artística, e das artes regionais. Existe regionalismo brasileiro na Amazônia, no Nordeste, na Bahia, no Centro, no Pantanal Mato-grossense. E temos, é claro, o regionalismo gauchesco, que é muito forte desde o século passado, a ponto de erigir uma sociedade que foi o Partenon Literário, fundado em 1868, aqui em Porto Alegre, na plena orogenia da Guerra no Paraguai, para dignificar os usos e costumes do Rio Grande do Sul. Sua finalidade era fazer literatura em prosa e verso em termos de gaúcho.

 

Registramos como curiosidade que até o surgimento do regionalismo na província, o termo “gaúcho” era extremamente pejorativo, a tal ponto que chamar um homem de bem de “gaúcho” era um convite ao duelo. Significa o vagabundo, o ladrão, o errante, às vezes guerreiro, às vezes pastor, sempre buscando novas paragens.

 

A primeira pessoa a usar o termo gaúcho com foro de dignidade e de elogio não foi José de Alencar, com o romance “O Gaúcho”, mas sim o poeta baiano Castro Alves, que se referiu com muito entusiasmo a Uruguaiana, onde o Imperador presenciou a rendição dos paraguaios de Estigarribia e se referiu encomiasticamente ao gaúcho. Um baiano, primeiro, e um cearense, depois, dignificando uma palavra que hoje é nosso orgulho, a nossa identidade! Então, temos a nossa tradição como um culto, o nativismo como um sentimento, o tradicionalismo como um movimento, o regionalismo como uma corrente artística e o folclore como ciência.

 

Mas, o movimento tradicionalista do Rio Grande do Sul possui uma certidão de nascimento. Foi deflagrado no dia 24 de abril de 1948, com a fundação, em Porto Alegre, do 35° Centro de Tradições Gaúchas, que teve como responsáveis maiores três nomes, hoje, consagrados: Paixão Cortes, o modelo, o porta-voz, o dínamo; Barbosa Lessa, o teórico; e Glaucus Saraiva, o sistematizador, o grande organizador. Esses três moços, quase meninos na época, prestaram ao Rio Grande do Sul, ao Brasil e à América um serviço que ainda não foi devidamente avaliado.

 

A partir da fundação do Trinta e Cinco, houve uma extraordinária proliferação de CTGs pelo Rio Grande do Sul, no Brasil, e até mesmo fora deste. Esses jovens sentiram, de imediato, a falta de material artístico, de condições que apoiassem o movimento. De poesia estavam bem servidos. Aureliano de Figueiredo Pinto, Vargas Neto, Glaucus Saraiva e Barbosa Lessa, Manoelito de Ornellas, Lauro Rodrigues e outros como Ramiro Frota Barcellos com o seu “Antônio Chimango”, Zeca Blau com a “Estânica do Abandono”, Balbino Marques da Rocha, com a “Estância de Dom Sarmento”, proporcionavam um bom material referencial que fornecia forças telúricas que alimentavam o movimento.

 

Entretanto, faltavam canções. Barbosa Lessa produziu o “Negrinho do Pastoreio”, hoje antológica, “Quero-Quero” e outras. Glaucus Saraiva criou “Charqueadas” e outras. Durante largo tempo, porém, foram muito escassas as canções. Com a expansão do movimento, surgem novos compositores: Luiz Menezes, Luiz Telles, Paulo Ruschel, Simão Goldman e outros. Com os programas de rádio, aparecem os conjuntos: os Minuanos, Os Carreteiros, os Gaudérios, este, segundo alguns críticos, até agora não foi igualado em seu talento. Aos poucos, multiplicam-se os compositores e os conjuntos sempre se movimentando dentro de um universo social restrito e agressivo.

 

Surgem Teixeirinha, Gildo de Freitas, Os Araganos, Os Irmãos Bertussi, que formam uma escola dentro da música serrana. Airton Pimentel, Antonio Augusto Fagundes e outros. Surgem, também, os festivais da canção popular no centro do Brasil. Imediatamente se fez necessário o surgimento de um festival da canção aqui no Rio Grande do Sul. Alguns foram organizados por emissoras locais, sem alcançar o sucesso que resultaria em suas reedições. Em Uruguaiana, realizou-se um festival de canções populares, e alguns rapazes tentaram inscrever canções que não foram aceitas.

 

Nesse tempo, presidia o Movimento Tradicionalista Gaúcho o poeta Hugo Ramirez, que tinha em sua plataforma de governo a realização de um festival de canções gauchescas. Em uma visita a Uruguaiana, Hugo Ramirez é recebido por dirigentes do CTG Sinuelo do Pago.

 

Percebe, então, a revolta dos jovens que haviam sido barrados no festival de canções populares. Decidem, então, promover, sob o patrocínio do CTG Sinuelo do pago, um festival de canções gauchescas, que recebe o nome de Califórnia, cuja primeira edição obteve um êxito surpreendente, outras cidades se movimentaram. Taquara cria  a Ciranda musical Teuto Rio-grandense, Flores da Cunha cria a Vindima da Canção e, a partir daí, a história dos festivais cresce até a incrível cifra de 58 realizações do gênero em um ano, aqui no Rio Grande do Sul. Atualmente, as dificuldades geradas pela crise econômica reduziram esse número para cerca de 40 festivais anuais.

 

Devemos destacar a força agregadora que os festivais exerceram sobre a juventude. Sua atratividade e aceitação foi de tal envergadura que conseguiu sensibilizar não somente os jovens adeptos do tradicionalismo, mas também aquela juventude que sempre esteve voltada para os ritmos alienígenas, que são consagrados universalmente. Esses jovens chegaram a criar um idumentária própria em conseqüência de sua vivência com os festivais: alpargatas, bombacha, faixa na cintura e camiseta. Nos festivais, encontram a música, a poesia, o canto e, paralelamente, o namoro, a festa, o churrasco e o chimarrão.

 

Daí, constatamos um fato muito importante: a música gaúcha urbana, que sempre hostilizou a música regionalista, rende-se e adere aos festivais nativistas, tendo em vista as excepcionais oportunidades mercadológicas que esses oferecem. O músico urbano compreendeu facilmente que, botando alpargatas, bombacha e uma faixa na cintura, poderia ganhar mais, obter maiores lucros financeiros atuando nos festivais e até mesmo integrando conjuntos gauchescos. A partir da adesão dos músicos e cantores urbanos, a música nativa recebe uma grande contribuição qualitativa e passa a ter um público cativo e um mercado de portas abertas. A partir deste ponto, os festivais revolucionarão a própria imagem do gaúcho. Tal fenômeno, importantíssimo, ainda não foi devidamente estudado. O tradicionalismo, com a pujança dos festivais, vai conferir uma identidade própria do Rio Grande do Sul – identidade conferida e não brotada espontaneamente. O gaúcho, de bota e de bombacha, e a prenda, com longo vestido de babados, passaram a simbolizar o Rio Grande como um todo, mesmo em áreas onde o gaúcho jamais foi presença histórica ou folclórica.

 

Essa forte identidade influenciará no mercado financeiro, na publicidade comercial, nas campanhas políticas, onde a bombacha passa a ter um fator de identificação com a comunidade.O traje gaúcho é reconhecido através de lei como traje oficial. O mundo editorial abre suas portas à literatura gauchesca, milhares de discos são gravados, dezenas de lojas especializadas vendem artigos regionais, a sociedade perde o receio de ostentar suas pilchas. Surgem as cavalgadas, multiplicam-se os piquetes e festas campeiras. Surgem os ídolos na arte gaúcha, e o extraordinário mercado de trabalho aberto a partir dos festivais atrai artistas dos países do Cone Sul, que passam a desenvolver seu trabalho em terras gaúchas. Novos conjuntos são criados a cada festival, milhares de reais são distribuídos mensalmente em premiações, atraindo mais e mais profissionais, centenas de espetáculos regionalistas são realizados, e a música gaúcha chega ao clássico quando maestros compõem até Óperas regionais. Enfim, há uma transformação, uma adaptação e grande aceitação aos novos hábitos e costumes. A sociedade rio-grandense é conquistada definitivamente.

                                                                       ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES

                                                                                  CARLOS CASTILLO

   

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